17 de outubro de 2018

Resenha: Palavras Tronchas - Edobardo Lyra


*Livro cortesia do autor

Poesia é algo muito, mas muito belo. Considero a forma mais pura de se fazer literatura. Grandes nomes, com o passar dos séculos, se juntaram à galeria de mestres desta nobre arte. Edobardo Lyra parece trilhar o mesmo caminho com sua obra Palavras Tronchas, publicado pela Scortecci Editora.
Sinopse: Persiste o poeta em sua infrutífera faina literária apresentando agora essas palavras tronchas em sua mais plena literalidade coletânea errática de poemas inconsequentes aos olhos e ouvidos dos desavisados. Os avisados se escafederam previamente evitando o dissabor. A obra continua vindo a público por conta do bolso ralo do autor pois ainda desta vez não houve alma benemérita que se atrevesse a assumir o risco certeiro da publicação. 

Ao todo, são 200 poemas divididos em 206 páginas. Porém, seria possível afirmar que o livro todo é um grande e único poema particionado em 200 partes (basta ver a nomenclatura de cada verso: PT 1, PT 2, etc.).

O autor apresenta uma certa melancolia e pessimismo quanto ao mundo e as pessoas que ele habitam. Ele busca mostrar a verdade nua e crua de nossa sociedade e quão ruim o ser humano pode ser. Não há uma única estrutura utilizada na obra, sendo possível encontrar todos os tipos de técnicas de poemas possíveis (incluindo a presença e a ausência de rimas).

"[...] tanta besteira fizeram conosco bem feito
afinal não é de hoje que a corrupção é instituição
mais melhor institucionalizada desde o império
mas depois que essa caterva tomou conta do país
saltaram dos sindicatos pra assaltar os bancos oficiais
no início tudo aprendiz de feiticeiro
num instantinho ficaram profissionais
meteram a mão adoidada na nossa grana
putada sem-vergonha cambada de sacanas
não tem jeito é tudo filho da puta
mas mesmo assim eu vou à luta [...]" 

(PT 17, pág. 21)

Pela definição da palavra "troncho", podemos dizer que o título, "Palavras Tronchas", significa "palavras mutiladas" ou algo semelhante, o que dá ainda mais a sensação de melancolia nas palavras escritas por Edobardo (este é seu nome artístico).

"[...] eu por exemplo nunca
paro meu carro caro 
no farol vermelho 
de madrugada se tu paras 
não devias é imprudência 
as quadrilhas ficam esquadrinhando 
desde simples gatunos 
até assassinos formidáveis 
para açambarcar nossos bens 
consumíveis na pior das hipóteses 
costumam acrescentar nossas vidas [...]" 

(PT 54, pág. 56)

A diagramação também é excelente. A capa mostra um homem alertando para não ser liberto nem ouvido, tanto que está com sua boca tampada. Isso denota, a meu ver, que este personagem tem muitas coisas "tronchas" a dizer. O que, de fato, acontece no livro.

"a incerteza talvez seja a única certeza
não sei se verei a próxima primavera
assim é nossa caminhada terrestre
enquanto seguem em suas órbitas os planetas
ora em calmaria ora com erupções
nossos mares cada dia têm menos peixes
e não é culpa dos maremotos
extinguem-se as florestas da terra
aumenta a poluição do ar [...]"
 

(PT 191, pág. 197)

Em suma, Palavras Tronchas é mais um daqueles cativantes livros para quem gosta de poesias, versos e afins e que quer rir um pouco de nossa sociedade debochada, bem como se chocar com o que a mesma é capaz. Recomendado.


Sobre o autor 
Edobardo Lyra aos quatro de abril de mil novecentos e quarenta e quatro d.C. no bairro de Pinheiros na cidade de São Paulo no estado de São Paulo num país chamado Brasil do reino animal gênero homo espécie dita sapiens segundo consta de relatos familiares foi parido em parto normal porém com bastante dificuldade e dor.

Na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo lhe concederam um doutorado em engenharia metalúrgica para que com alguma proficiência fosse ganhar e repartir o pão dele de cada dia. Na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo lhe concederam um bacharelado em letras para que fosse tentar convencer palavras a se juntar em frases e versos na talvez vã tarefa de dar algum sentido a sua existência tão mal cumprida tão mais comprida do que a restinga de Marambaia.

Sobra a máscara de Eduardo Barchiesi com a qual lhe concederam um RG e um CPF colocou outras máscaras para brincar no carnaval da vida. De Omar Bem Iamin como fabulista. De Alan Pow contista. Sheik Spir dramaturgo. Loco Carneiro romancista. Edobardo Lyra protopoeta.
Blog do autor | Instagram

Nota: 5


Serviço
Livro: Palavras Tronchas
Autor: Edobardo Lyra
Editora: Scortecci
Páginas: 208
Ano: 2017
Preço Médio: R$ 25

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