23 de outubro de 2018

Resenha: Maria Clara: A Filha do Coronel - Virgilio Pedro Rigonatti


*Livro cortesia do autor


Desde os primórdios (e ainda hoje), há quem, insista em pensar de forma retrógrada e afirmar que o papel da mulher no mundo é o de submissão, servindo apenas para casar, procriar e cuidar da casa e dos filhos, nada mais. Até parte do século passado, este pensamento era reinante em muitas partes do País. Podemos ver isso na saga de Maria Clara, que sofreu desde o berço com sua origem, em Maria Clara: A Filha do Coronel, de Virgilio Pedro Rigonatti, da Editora Autoridade.


Sinopse: O coronel Lucas Vasco era considerado um homem bom. Protegia os amigos e os seguidores. Sua trajetória se confunde com a história da cidade de Arari, em Minas Gerais, que mantinha sob controle, usando, inclusive, de violência e intimidação. Além disso, usava seu poder político e econômico para ter as mulheres que desejasse. Dentre todas as amantes que ele mantinha, Maria Custodio era a preferida dele, e dessa relação nasceu Maria Clara. O relacionamento dos dois foi mantido por alguns anos, ainda que ele nunca tenha dado atenção à filha ou sequer reconhecido a paternidade oficialmente. A menina, que sabia da situação, não se deixava abalar: o amor que recebia da mãe era suficiente. Foi assim que Maria Clara cresceu no pequeno povoado: saudável e feliz, apaixonada pelos estudos e sempre atenta à passagem da Maria Fumaça pela estrada de ferro Mogiana, a qual podia ver pela janela de sua casa. E isso tudo é só o começo. Neste livro que mistura biografia e ficção, Virgilio Pedro Rigonatti conta a encantadora história de sua mãe Maria Clara, que sempre levou a vida de maneira inspiradora e positiva - e que merece ser contada a todo mundo.

A história é baseada em fatos pelos quais Maria Clara, a mãe do autor, passou durante toda sua vida. Para contar as desventuras da mineira nascida em Arari (posteriormente, Itamogi), Virgilio contextualiza muito bem o momento vivido pelo Brasil no final do século XIX e metade do século XX, bem como a história da região na qual a história se passa.

O autor sempre teve vontade de "passar adiante" as histórias de sua família, sendo que a trilogia que está escrevendo (Virgilio está no último livro) foi a "saída" muito bem encontrada.

"Por sua força política e econômica, o coronel era um verdadeiro senhor feudal em sua comunidade, mandando e desmandando ao seu bel-prazer. Os mais audazes não tinham limites em seu poder, impondo, por bem ou por mal, suas vontades em todos os campos, até mesmo no plano sexual, tendo as mulheres que desejassem."
(Coronel, pg. 23)

Neste primeiro livro, conhecemos o pai de Maria, o coronel Lucas Vasco, bem como sua origem. Naquela época, o coronelismo (domínio dos coronéis - aqueles que tinham muito dinheiro e terras - por sobre a população por meio de coerção e favores) era muito comum no interior do País. Vasco era mais um deles. Consequentemente, tinha as mulheres que quisesse e quando quisesse. Foi dessa forma que Maria Clara nasceu.

Desde criança, a menina sofreu com o preconceito dos conservadores da cidade por sua condição familiar, fato que atrapalhou em demasia seu amor por um amigo de infância -  o qual não tinha "vocação" para ser namorado de Maria Clara, para falar a verdade. Dá vontade até de criar uma máquina do tempo e falar umas boas verdades para essas pessoas de Itamogi.

"Procurando uma maneira de demover o senhor Julio da decisão de ser contra o casamento do Junior comigo, minha mãe tomou a decisão de apelar para o coronel Lucas Vasco, dada a influência que ele exercia sobre todos na cidade e o senhor Julio ser um grande admirador e partidário dele.
Quando minha mãe tinha alguma demanda a fazer para o coronel, ela se postava no centro da cidade, no caminho que ele fazia de sua casa para a fazenda, no horário que habitualmente ele passava.
O coronel era sempre acompanhado por alguns jagunços que lhe davam proteção."
(Desalmado, pg. 142)

A diagramação é magnífica. Conforme o autor detalha no último capítulo, a foto da capa (uma maria-fumaça, recém chegada à antiga Arari) foi tirada por sua esposa, bem como a revisão de toda a obra foi realizada por ela como base. Os capítulos são curtos e de fácil compreensão, idem a tipografia.

Em resumo, Maria Clara: A Filha do Coronel nos descortina a história de uma representante das milhares - se não milhões - de mulheres deste Brasil e mundo afora que enfrentam rejeição, resistência e que têm que se desdobrar para sobreviver a este mundo cruel. Identifiquei minha própria avó por parte de mãe nesta história, a qual também tem uma história que daria livro. Pelo contexto histórico e pelo sofrimento da mãe de Virgilio, a torcida que temos para que tudo dê certo para ela e sua família, a obra é mais do que recomendada.

NOTA: 5/5 


Serviço 
Título: Maria Clara: A Filha do Coronel 
Autor: Virgilio Pedro Rigonatti 
Editora: Autoridade 
Páginas: 192 
Ano: 2016 
Preço Médio: R$ 25

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