31 de janeiro de 2017

Resenha: O Corvo - Um Livro Colaborativo




* Livro cortesia da editora

No mundo literário, a homenagem é sempre válida, ainda mais quando autor e obra são tão importantes. Assim nasceu O Corvo: Um Livro Colaborativo, da editora Empíreo e escrito a 120 mãos.

Isso mesmo, 120 mãos! Um total de 60 autores, sendo 53 escolhidos e sete convidados, dentre eles, Mário Bentes, André Vianco, Bruno Godoi, Cláudia Lemes e C. B. Kaihatsu. Eles tiveram a missão de escrever contos inspirados em O Corvo, de Edgar Allan Poe, uma das histórias mais tensas já escrita na literatura mundial , que nos influencia até os dias de hoje e que comemorou 170 anos de publicação, motivo da homenagem. O resultado ficou espetacular.

Sinopse: O livro é uma homenagem aos 170 anos de lançamento do poema O Corvo de Edgar Allan Poe e reúne 60 textos e 15 ilustrações. Dos textos, 53 são de autores escolhidos do público, e sete são escritores de convidados: André Vianco, Rubens Lucchetti, Cláudia Lemes, Edyr Proença, Salomão Larêdo, Bruno Godói e Andrei Simões. Das ilustrações, três são de grandes artistas convidados: Zakura Aoyama, Eduardo Seiji e capa ilustrada pelo tatuador Victor Octaviano. As outras ilustrações vieram de artistas selecionados de várias partes do país.

Como a sinopse já informou, algumas páginas são ilustradas e mostram todo o terror e tristeza que Poe transmitiu em seu poema original, além de ornar muito bem com os contos da nova obra. Cada autor trouxe um estilo diferenciado para a obra: Escrita em primeira, terceira pessoa; poemas, sonetos, até histórias mais bem trabalhadas com começo, meio e fim e até com divisão em três atos, como é de praxe no texto teatral.
"Eu vejo esses olhos ameaçadores me encarando. Corro. Escondo-me. Tento fugir. Não quero receber a mensagem nefasta que essa ave veio me trazer. Sinto o arrulhar fantasmagórico em meus ouvidos. [...] Então, eis que tropeço no corpo que jaz sem vida no chão. O horror desta cena me atordoa. Esse olhar frio e vidrado assombra os meus pensamentos. Já não sei mais se é ele ou se sou eu."
(KAIHATSU, C.B. Pombo-correio da meia-noite. Pg. 86)
O trecho reproduzido acima é do poema de um de nossos parceiros, C.B Kaihatsu. A autora foi "premiada" com uma ilustração ao lado de seu poema sombrio. Além das mesclas de narrativas, a obra também apresenta diversos cenários e diversas nomenclaturas que partem de Edgar e Lenora, além da presença massiva da figura do corvo.

Sobrenomes nacionais e internacionais, cidades brasileiras e do exterior, tudo aparece nas 60 histórias que encantam as 328 páginas. Cada autor conseguiu, em minha opinião, extrair o lado mais perverso e sombrio de Poe e lhe deu uma justa homenagem.
"O velório de João ainda pesava sobre todos que agora circulavam a sala de estar como corvos. Duas lâmpadas queimadas há meses ajudavam na atmosfera triste do ambiente, que já estava vergonhosamente empoeirado desde que João adoecera. Lá fora, o outono adicionava um coeficiente à equação: o de indefinição. Anos depois, não saberiam descrever a noite como quente ou fria. A noite do dia do enterro de João estaria ainda mais desprovida de personalidade. O falecido de oito anos não tinha pai (a mãe não falava dele), não tinha causa de morte (nenhum médico havia feito diagnóstico exato do que lhe afligia) e tampouco temperatura."
(LEMES, Cláudia. Os corvos da Torre de Londres. Pg. 42)
Apesar dos pontos positivos, algo que me surpreendeu negativamente foram as revisões gramatical e ortográfica. percebi muitos erros de pontuação (no caso, a vírgula sendo colocada em lugar errado) e até algumas palavras escritas erradas. Claro que errinhos podem passar, mas, pelo o que vi, foram mais do que deveriam. Ademais, a diagramação é boa, com fonte mediana e mais "quadrada" (foi usada a Origami Std), que pareceu casar com o conjunto da obra.
"O niilista desapareceu enquanto caminhava de volta do mercado sob o sol do meio-dia. Exatamente ao meio-dia, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Não foi sequestrado, nem abduzido, nem morreu, nem se escondeu. Realmente desapareceu, sumiu, desmaterializou-se no ar, deixando um saco de maçãs cair no chão da Praça Matriz. E era como se ninguém mais se lembrasse dele, não chamaram a polícia, nem o padre, nem ninguém. Era como se ele nunca tivesse existido. Olvidado. Deixou para trás apenas desilusões, frustrações e desgostos. Nenhuma lembrança relevante, nenhum amigo, parente ou rebento. Nenhum amor, fé, nada. Não era ninguém, não tinha ninguém, não importava."
(BOGÉA, John. O niilista. Pg. 125)
Com todos estes aspectos, recomendo forte mente O Corvo: Um Livro Colaborativo para todos àqueles amantes de literatura fantasiosa, porém com um quê de suspense e que nos faz pensar na vida, na morte, nos amores. E, claro, também recomendo para quem gosta de Edgar Allan Poe.

Nota: 4,5

Serviço
Vários autores
Editora: Empíreo
Páginas: 328
Preço médio: R$ 39,90

Um comentário:

  1. Fui apresentada a esse livro na bienal do livro se sp de 2016 e fiquei bem interessada em saber mais sobre a obra que cerca um dos meus contos preferidos.
    Muito boa sua resenha.
    http://minimundoliterario.blogspot.com.br/

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