20 de janeiro de 2015

Resenha: A Comissão Chapeleira - Renata Ventura


O livro A Comissão Chapeleira, sucessor de A Arma Escarlate, de Renata Ventura consegue mexer com os emocionais dos fãs da obra contada pela autora. Renata estilhaça os sentimentos de quem lê, no bom sentido, é claro.
 
Sinopse: Atormentado pelos crimes que cometeu em seu primeiro ano como bruxo, tudo que Hugo mais queria naquele início de 1998 era paz de espírito, para que pudesse ao menos tentar ser uma pessoa melhor. Porém, sua paz é interrompida quando uma comissão truculenta do governo invade o Rio de Janeiro, ameaçando uniformizar todo o comportamento, calar toda a dissensão, e Hugo não é o único com segredos a esconder. Para combater um inimigo inteligente e sedutor como o temido Alto Comissário, no entanto, será necessário muito mais do que apenas magia. Será preciso caráter. Mas o medo paralisa, o poder fascina, e entre lutar por seus amigos ou lutar por si próprio, Hugo terá de enfrentar uma batalha muito maior do que imaginava. Uma batalha com sua própria consciência.
 
No segundo livro o personagem Hugo Escarlate mostra estar com muito remorso do que fez no ano anterior na escola Korkovado. Contudo, a personalidade do jovem fala mais alto e nas primeiras páginas já percebemos que mesmo se sentido culpado pela venda de cocaína no ano anterior ele não perdeu sua ambição pelo poder e também está pagando pelas consequências de seus atos.
É ano de eleição no mundo bruxo brasileiro e o desenrolar da história envolve este assunto.Alguns dos Pixies estavam auxiliando a campanha de Átila Antunes, que se opunha ao Partido Conservador. Com a morte do político candidato à presidências as coisas começam a mudar, inclusive na escola. Tomando como exemplo a Europa o novo governo preza por bons modos e costumes, além de roupas de moda europeia, estudos muito mais rígidos e etc. Contudo, a metodologia para fazer isso não é a mais correta. 
 
Esta nova política é imposta as pessoas, infernizando a vida dos alunos das escolas de bruxaria do Brasil. E a Comissão Chapeleira chega de forma brutal para colocar “ordem” em toda a “bagunça”. Ainda lidando com os vestígios dos danos causados no ano anterior Hugo, os alunos e os Pixies são obrigados a encarar hipnoses, torturas e até mortes por causa dessa “nova política”.
"Seu corpo estava inchado de tanta porrada, cheio de pequenas mordidas já infeccionadas, ao lado das bicadas mais recentes dos abutres, como se, antes mesmo de ser jogado ali, ele já houvesse sido comido vivo por insetos, ou  algum outro tipo de animal."
 
Renata Ventura também torturou os fãs, no bom modo que somente um ótimo autor sabe fazer. Raiva, angústia, tristeza e alegria se juntam para fazer um grande livro. Além disso, é notável no livro a ampla pesquisa histórica que autora fez para desenvolver os assuntos, além da descrição dos lugares, que são simples e ao mesmo tempo completas, fazendo o leitor se sentir em cada cena.
 
Os sentimentos dos personagens também são relatados, é possível se afligir com as escolhas (erradas) de alguns deles e ler angustiada as consequências disso. Me atrevo a escrever que gosto (e ao mesmo tempo não gosto) do Hugo pelo fato dele ser um protagonista diferente do habitual, dos que encontramos na maioria dos livros. Ele é “uma pessoa normal”, é inteligente, astuto, mas ao mesmo tempo gosta do poder e não mede esforços para consegui-lo. Isso chamou minha atenção em A Arma Escarlate e se reforçou em A Comissão Chapeleira. Hugo é o tipo de pessoa que troca o certo pelo duvidoso (que muitas vezes está errado) pelo simples fato de escolher o que melhor lhe beneficia. É egoísta e ao mesmo tempo companheiro com alguns de seus amigos, como no caso de Gislene, Capí e até mesmo Eimi. A escritora soube desenvolver de forma excepcional o personagem, que parece ter vida além das páginas.
 
Particularmente falando da atuação do governo e da Comissão Chapeleira, foi possível notar uma “ditatura” nas páginas, de um lado algo é imposto, do outro, os “rebeldes” se revoltam contra o governo. É triste e de apertar o coração ver o modo como os chapeleiros tratam as pessoas, mas infelizmente é possível identificar que isso também acontece (e aconteceu) no mundo real.
 
Corrupção, violência, drogas, romance, amizade, questões da adolescência, etnias são apenas alguns dos assuntos que a Renata Ventura desenvolveu muito bem neste segundo livro, com o cuidado de expor o tema e sabendo falar sobre assuntos, que por muitas vezes são considerados complexos.
 
O desfecho da história é MARAVILHOSO, algo que eu particularmente não esperava. E mostra que todos são capazes de se redimir, basta querer e as vezes ter alguém que te apoie. Li o último capítulo com um sorriso no rosto e espero ansiosamente pelo próximo da série.
Outro aspecto a mencionar é que por vezes fechei o livro e refleti sobre o que eu tinha acabado de ler. Se engana quem pensa que é apenas “mais uma história para crianças”. Quem lê o livro e realmente entende afundo o que ele expõe sabe que ele tem muito a dizer e tais coisas podem e devem ser comparadas com o nosso cotidiano, assim podemos refletir sobre o mundo o qual vivemos.
Por fim, mesmo não sendo comum falar, quero citar os agradecimentos do livro. Fiquei muito contente em ler os agradecimentos e reconhecer nomes de amigos meus no livro. A literatura nacional nos aproxima tanto dos autores que adoramos, né? Pena que não vi meu nome lá, haha. Mas amei ver o carinho que a autora teve com seus fãs.

Quem quiser se envolver realmente com um livro precisa ler A Comissão Chapeleira, eu mais do que recomendo. 
 
Serviço
Livro: A Comissão Chapeleira
Autora: Renata Ventura
Páginas: 655
Data de publicação: 2014
Editora: Novo Século
Preço médio: R$ 35

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