5 de agosto de 2014

Opinião: A dicotomia dos rasos leitores elitistas



Um colega jornalista, que respeito muito, pediu em seu perfil no Twitter sugestões de títulos do escritor Paulo Coelho.

Isso porque ele não conhece a obra de Paulo e gostaria de ler algum título do senhor que, quer você queira ou não, faz parte da Academia Brasileira de Letras. A surpresa foi que o próprio Coelho respondeu a postagem do colega, o que não foi surpresa foi a reação de outros usuários de redes sociais chamarem o escritor de “inútil” e de alguém que “redige mal sobre o nada”. Não quero tietar ninguém, mas o que está por trás desta dicotomia de rasos leitores elitistas?

Veja bem, existem diferentes aspectos sociais e históricos que acabam criando rasos leitores elitistas, um exemplo é o próprio Romantismo, que vai além da Escola Literária Romântica, e circula em campos de uma revolução burguesa (sim, um dia os burgueses foram revolucionários), que queriam sustentar um sentimento nacionalista dentro da filosofia e política também. “Não seja pateta, senhor leitor”, já disse o português Almeida Garrett, em sua obra “Viagens Na Minha Terra” (1843), ele mesmo deu a receita, de forma bastante humorada, sobre um romance é criado:

“Todo o drama e todo o romance precisa de:
Uma ou duas damas.
Um pai.
Dois ou três filhos, de dezenove a trinta ano.
Um criado velho.
Um monstro, encarregado de fazer as maldades.
Vários tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios.”

O que seria de Machado de Assis sem Almeida Garrett ou Manuel Antônio de Almeida? Desde aí, é criado um elitismo pseudo-crítico sobre o que é bom ou não dentro da literatura, aí, rasos leitores, os “patetas” com suas amarras de pouco autoconfiança, acaba abraçando preconceitos sobre o que os outros devem ou não ter lido. Afinal, “Machadinho deve ser lido em sua edição original”, claro, concordo. Mas Machadinho é só mais um escritor, morto, de tantos outros que temos vivos e são menosprezados por um bando de acadêmicos, jornalistas e editores de livros imbecis. Uma tragédia.
O mais importante, que estes rasos leitores esquecem é de que, coitados, um livro deve ser lido, não consumido. Não entendeu?

Do que adianta comprar Machado de Assis, Eça de Queiros ou José de Alencar se você não entende se quer uma oração do que está escrito lá? Então, não compre! Verdade. É evidente que este não é o caso deste meu colega jornalista, ele já leu este livro, lê diversos e também consome uma infinidade e outros, assim como eu que escrevo estas linhas, assim como você provavelmente deve fazer (ou deveria). Sabe o motivo? É que livro é um comércio, meu caro “leitor benevolente”. O livro é um produto de consumo, por isso que existem até cursos de editorações, por isso existem listas de best sellers, por isso que você é quase obrigado por outros rasos leitores rasos a ler X títulos por ano, mês ou semana, para ficar bem na fina naquela entrevista de emprego marota, (ufa, desculpe, vou deixar você respirar).

Então, antes de entrar neste modismo capitalista de merda em que diz o que é bom ou ruim sem nenhum argumento minimamente mais profundo do que um centímetro. Leia Paulo Coelho. Mas não se esqueça de outras infinidades de escritores e escolas literárias que estão por aí nas estantes poeiradas dos sebos, bibliotecas ou das desinfetadas livrarias.

O importante é: leia, não consuma.

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